segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Esmalte

Para mim, o Amor acontece uma vez só.
Depois, fazemos ensaios e variações sobre ele.
Saímos do nosso primeiro verdadeiro Amor com um legado que consiste em bagagens abarrotadas de roupas mau passadas e manuais de como funciona isso ou aquilo. Em relacionamentos com um outro alguém depois de já ter amado, tem toda aquela história do “Olha, eu já passei por isso, então eu acho melhor...” E é aí que concluo que realmente o Amor acontece uma vez só.
Amor é quando você não passou por nada disso, quando você se arrisca com tudo pela primeira vez: lambe a faca sem medo de cortar, faz Amor numa cama de pregos, confia com os olhos vendados por um pano imerso em ácido. Quando não se sabe o que fazer, como agir, o que dizer. Quando não se define, nem se procura por definições (lembrando, claro, que este é apenas o meu desgraçado ponto de vista).
Por mais harmonioso que ás vezes possa ser um relacionamento, sempre será um campo de concentração: você nunca sabe o que te espera.
O Amor é uma garrafa de whisky, um colchão de molas, uma ratoeira, um vidro de esmalte vermelho.
O Amor que lhe pintou as unhas com a vivacidade rouge, é o mesmo Amor que lhe tirou o brilho com acetona fresca. Azar o seu ter deixado resíduos debaixo da unha só pra poder mordiscar depois. Não é saudável, sabia?! Mas, convenhamos. Quem é que disse que conseguimos controlar o impulso?
Pego-me perguntando: Então, gostarias de não ensaiar variações e arriscar tudo de novo sem conhecer o terreno?
A verdade é que eu não sei a resposta. Isto vai ficar martelando em minha cabeça, mas tenho certeza que não vou chegar á conclusão alguma.
Contudo, mesmo sendo o Amor um acontecimento único, felizes somos nós que podemos Amar de novo. Seja ensaiando, variando, ou sob a felicidade terrível de descobrir que eu estou errado, e que se pode sim, mesmo depois do Amor mais forte de uma vida, repetir á dose.
A dose de whisky, de esmalte.
Os “Eu Te Amo” claustrofóbicos.
As queimaduras de terceiro grau resultantes dos sexos em ebulição.
O choro maricas diante da reprise do Amor em cena.
Tragédia. e comédia. Horror e pornografia.
Amemos.
Morramos.


Cláudio Rizzih.

                                                                             

Encerro com uma das obras mais lindas de Picasso, L'étreinte (1903), que eu interpretei de forma muito especial, e senti tocar-me de acordo com as palavras que deixei acima. 


"O que será? Que Será? Que vive nas idéias desses amantes
 Que cantam os poetas mais delirantes
 Que juram os profetas embriagados
 Está na romaria dos mutilados
 Está nas fantasias dos infelizes
 Está no dia a dia das meretrizes
 No plano dos bandidos dos desvalidos
 Em todos os sentidos. Será, que será?
 O que não tem decência, nem nunca terá!
 O que não tem censura, nem nunca terá!
 O que não faz sentido..."


(Chico Buarque)

Abraços calorosos, 

Claudio Rizzih.

5 comentários:

Leonardo Távora disse...

Essa música do Chico Buarque devia se chamar "Carta ao Cláudio". Bem reflexo do q vc é mesmo. ótimo texto. Sempre os melhores textos são aqueles, grandes ou pequenos, que saem de dentro d'alma. Assim se produzem imponentes romances. Assim se constroem edificantes poesias. Palavras, apenas palavras, que se juntadas da melhor maneira são capazes de traduzir desde um momento até o sentido - real ou não - de um olhar, daqueles que misturam mel e hortelã na medida certa, que encantam poetas, escritores sonhadores que acreditam que o sonho possa um dia tornar-se real, mesmo ele continuando dia após dia sendo apenas sonho.

Andresa Alvez disse...

Concordo plenamente, o Amor verdeiro acontece apenas uma vez na vida. Não importa se existe reciprocidade ou não, acontece uma única vez.
E sendo assim, vale a pena se jogar, se arriscar, viver cada segundo extremamente; pois pode durar para sempre, ou não. E, às vezes, mesmo quando o relacionamento acaba, o Amor fica. O verdadeiro Amor sempre fica.

E a respeito da Obra de Picasso, incrivelmente linda! Fez jus a cada palavra do texto!

Mais uma vez, parabéns, Meu Amor ♥

Pinktrash® disse...

amemos, morramos.

já dizia raul, que não é feliz quem só amou uma vez.

ainda tenho muito oq meditar nessa frase dele, mas deixo pra ti :}

Anônimo disse...

me mata? p.

David disse...

Deu medo esse. Prefiro acreditar que ainda não amei, embora teu texto me faça ver o contrário.

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