terça-feira, 15 de novembro de 2011

Madre

Sentado no mato, espero.
Os dias me fundem ao barro
Palmo por hora
Sentado no mato, espero.
Um dia tua fome de gente e asfalto
Será saciada
E eu vou estar te esperando
Com o meu Amor que é rural
Feito pra colono que és.

Claudio Rizzih.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cavalo

Recordo-me bem as infiltrações
Num período de vulnerabilidade.
Mas agora muralha há
Nada molha nem espalha.
Faz sol na tua geografia
Logo mais no fim do teu dia,
Me verás!
Sou eu chovendo lá atrás do morro
Longe... Longe...
Reza brava para que os ventos me soprem
Pro norte, lá longe, pros quintos, fazes.
Massa de ar seco dos caralhos.
Pragueja inútil aos ventos
Renunciando um resto de vontade
Do fundo do casco,
Seu cavalo.

Claudio Rizzih.

Três

Um talho para cada erro
Um homem para cada falha
E três com três com três
Logo estes nove se farão vinte e um
A soma se perde em meio aos fracassos
Do par exato, nós dois.
Neste cálculo sem fim
Já não encontro mais em mim
Derme para aliviar.

Claudio Rizzih.

domingo, 6 de novembro de 2011

Soro

Pensar em você me enforca.
Nossas fotos uma facada
O teu cheiro, claustrofobia
Tuas cartas me queimam os olhos
Ligações, esquizofrenia
Pensar Joaçaba, vertigem
Lembrar meus ciúmes, urticária
Imaginar nosso sexo, taquicardia.
Pensar não te ter... Coma.
E nesta rotina de –Santo Deus- todos os dias?!
Pergunto-me como diabos ainda estou vivo.
Misericórdia, esperança, sorte (não sei).
Mas gosto de acreditar que é por que
Mesmo com tamanhos excessos e
Todo o meu drama poluente
Este Amor é puro como uma bacia d’água. 

Claudio Rizzih

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Versículo

As ruminações desta quinta-feira
Se findam quando o mar da Penha
Me estende os braços
E as suas ressacas me sussurram solidões.
Em noite e dias assim
Mesclando a ânsia sincera e visceral pelo futuro
Com um desejo devastador, força maior
Que hoje fosse ontem
E ontem antevéspera
Tento dormir.
Se quem vive de passado é museu
Eu sou uma cidade pré-histórica.

Claudio Rizzih.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ovo


Vou chegar assim, mendigo,
e logo te ganho.
Fico assim, contigo,
e te roubo.
Me enxergarás, para ti, o amigo.
me Amas.
E cuspiremos no mundo, donos de todas as razões
Tropeçaremos na baila, mijaremos na orla
Seguiremos as regras –algumas-
Neste entrelaço de artérias.
Vê? Te pertenço.
E então te ouvirei. Te enxugarei, e pronto. Nada falo.
Pois neste nosso silêncio há de haver uma resposta.
Eu serei a tua incubadora
E tu me descobrirás teu umbigo.
Nós dois, num ovo.
Num gole, num bairro.
Num ovo.
Mas aí, caro amigo
Desça logo de mim,
Pra não te machucares muito quando eu partir.
E ainda que eu prometa voltar pra te ver,
Não esperes por mim na varanda,
Nem sondes vez ou outra a sacada
Para ver se viro a esquina.
Deixo contigo memórias
De todo o meu te entender e te Amar.
Deixo saliva, cartas e porra.
Só não espere que eu seja nos teus trilhos permanente companhia.
Não espere de mim ser toda uma ferrovia.
Eu sou uma carona.
Eu, na boléia, sentado ao lado de mim.
Só, e só.

Claudio Rizzih.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tem Saudade na minha Janta.

Como o navio que colidiu com a rocha
E a mãe que espera o filho morto voltar
A vida ancorou. Sempre ancora.
A Saudade sobrenome
É o preço que pago por viver intensamente.
A vida estacionou
Naqueles anos em que tu me Amavas como á ti
Em que dávas-me nós fortes para não fugir
E mal sabias tu que eu jamais partiria.
Fomos felizes.
Boa noite, querido.

Claudio Rizzih.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Inerte.

Eu jurei que encheria de palavras este diário
Feito o do ano passado.
Que colaria fotos e lembranças
E mágoas e demônios.
Mas agora que não há Amor
Quero dizer, de homem
Não há também latim, nem precipícios
Nem frutas nem velórios
Não há porquês
Nem o ano terá trezentos e sessenta e cinco dias.
Restam apenas as brasas de nós dois
As linhas vazias e muros em branco
E tantos, tantos ensaios
De um jovem poeta de merda
Que vive de Saudades e invernos
Nesta inerte pensão dentro de mim.

Claudio Rizzih.

sábado, 1 de outubro de 2011

Dijaox.

Eu sou o encontro do homem que você planejou ser
Com a frustração touro.
Mês que vem eu estive contigo
E amanhã eu senti Saudades.
Me come na maca, eu ejaculo no dreno.
Me Ama na cara que eu to podre por dentro.
Eu idoso.
Surrado da vida
Á velar nossas bodas.


Claudio Rizzih.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Penha

(Num fim de tarde demais pra pensar em fazer diferente).


Os meus pés desenham o fim do trapiche desta praia
Abaixo dos meus olhos um mar sem ondas, silencioso
E profundo.
Deve haver lá em baixo peixes, espécies muitas, areia, objetos.
Sinto uma vontade tamanha de me deixar cair
E ver se no meio desta desordem de Deus
Encontro o que restou daqueles dias. Do passado.
Que uma vez me pôs maravilhado, e abandonou-me
Em Saudades a ancorar.

Claudio Rizzih.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Jazigo Macio.

Ela sabia que só tinha mais um dia.
Estava diagnosticada.
Então naquela noite estalou ovos, passou ela mesmo o café.
Ele sentou-se a mesa, lhe sorriu Amorosamente
Ela engoliu aquele sorriso devagar, e voltou ao fogão para esconder as lágrimas.
Amavam-se tanto, tanto...
Foi ao quarto, cheirou as roupas dele.
Olhava os sapatos, os uniformes do trabalho, os móveis
Havia ainda o presente bem alí, na medida do possível, sólido.
Mas o passado fora tão perfeito, tão mais perfeito
Tão verdadeiramente o que de melhor acontecera em sua vida
Que ela havia colidido. Estava presa, bem lá.
Ele ligou o chuveiro, e ela ouvia a água cair, enquanto imaginava o seu corpo
Em cada parte. Lembrava-se do gosto, da temperatura
E chorava. Tão insolúvel, pesado, saudoso...
Cerrava os olhos, e seus momentos juntos lhe vinham como vultos.
Céus... Como fora feliz.
Quando ele voltou ao quarto, ela já fingia dormir.
Não houve um diálogo naquela noite
Apenas o costumeiro "Boa noite, meu bem"
E um beijo. Um último beijo.
Aquele silêncio surtia-lhe o efeito de mil demônios gritando em seus ouvidos
Travando uma batalha com a canção que era a respiração lenta dele.
Percebeu que descansava em sono pesado, e o abraçou por trás.
Ele era tudo o que ela mais Amava em sua vida. E a sua existência era o motivo
De seus dias mais quentes, e seus risos mais gostosos.
Vital feito saliva.
Não pregou os olhos aquela noite.
Ela sabia que só tinha mais um dia.
Pois havia se auto-diagnosticado.
A sua chaga era o passado, e era terminal.
Levantou-se e foi tomar o seu café
Que naquela manhã de um quase breu
Descia mais amargo do que o normal.
Pôs-se nua. Vestia apenas seus anéis.
Os que ele lhe dera.
Foi procurar em algum lugar do tempo
O Amor com sabor de manhãs, laranjeiras e reconciliações
Que havia ficado nas frestas.
Ele levantou. Calçou seus chinelos velhos e foi á cozinha.
Havia uma gérbera amarela no canto da janela
E um rouxinol cantava alegremente.
Cantava para sempre.
E lhe destruía pensar que
Ele teria muitos dias.
Muitos, muitos dias.

Boa noite, meu bem.
E,
Eu Te Amo.


Claudio Rizzih.


Como esta noite findará?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Feto

E daí que tu tens que acordar amanhã cedo?
Atende esse telefone agora, e me ouve.
Me ouve porque eu preciso dizer que Eu Te Amo.
Que Eu Te Amo mais do que qualquer "mais do que".
Que eu passo os dias procurando involuntariamente nos outros
Um pedaço de vida que me aproxime daquilo que nós éramos juntos.
Sei que você vai dizer que é drama, cabeça fraca
Mas preciso confessar que quando estou feliz
Procuro as nossas lembranças e me ponho triste
Porque não aceitaria jamais "superar" tudo isso.
Isso de "bola pra frente e a vida continua".
A vida continua sim. A minha vida, em suas mãos.
Então eu escolho mais uma vez o náufrago, o aborto.
Porque a vida vem tentando germinar em mim sementes de amanhãs
De outros e cores que eu já conheço.
Eu as aborto todas.
Como pode depois de todo sofrimento, temporal, e
Madrugadas insones de coriza
Eu Te Amar ainda mais do que quando ontem?
Eu tenho comprado todos os teus perfumes e passado em mim
E me entorpeço e me toco, pra enganar-me a pensar que és tu
Mas nem minha mão tem o calor dos teus dedos
Nem eu sou capaz de passar num simples toque
Todo o Amor que tu me davas.
Sabes o que sinto ao te ver com prováveis Amantes?
Vontade de matá-los. Um a um.
Eu o faria gritando, e me insoparia.
Aí faríamos Amor ao lado do corpo.
Mas eu não sou assassino de outros. Só de mim.
Nem tu me Amas mais como antes.
Não me queres como antes.
Não lembras com frequencia do nosso antes.
Não atendes os meus pedidos de reconciliação
Nem mesmo atendes o telefone.
Boa noite.
Vou por nosso Amor pra dormir.


Claudio Piegas Fossa Rizzih.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Balsa


O meu coração está inflamado:
Há uma birgorna no espaço do peito
E um anzol na pálpebra.
O resto é aterro e outono.
Eu fico pensando em como você está.
Se está sorrindo, o que está comendo, quem está comendo.
Se está vestindo aquela camisa que eu te dei
Ou mesmo a minha que ainda está aí porque me esqueci de pegar
E fica justa em você, mas você insiste em usar.
(Porque ela é linda e eu aposto que você usa para galantear á outrem)
Meus olhos, meus dedos, meus pelos
O coração - o peito e o pênis
Estou tão em você...
Eu sinto a sua falta, ta?
Do cheiro da tua cara depois de comer pizza
De passar pomada nas feridas das tuas costas
Da tua bordoada na minha cara.
Eu sinto, na verdade, falta de morrer todos os dias.
Estou sem você.
Tão vivo que não me agrada.
Eu que havia aceitado a condição do estado de coma
Desde que tu estivesses á beira da cama,
Agora faço terapia ocupacional
Brincando de vida por aí.
Vivo.
Beijando mendigos e putas
Pra boca não ficar seca.
Tão cheio de vida por nada.
Tão cheio de nadas nessa vida,
Que não me encanta. 
Volta pra mim e me mata de vez.
Me mata de novo. 
Porque "morrer de Amor", tu sabes
Me apetece.
Uma overdose de recomeços.

Claudio Rizzih

sábado, 9 de julho de 2011

Aviário

Palavras em bando, para o quase Amor
De uma vida de talvez
(Ou mesmo de nuncas)
Para uso de ninho.
(Coma-me inteiro
E deixa no estômago.
Ou expulsa cloaca á fora.
Mas, come).

Eu quis voar e posar nos teus ramos
Mas tu tinhas contigo a peste no teu aviário.
Lacrou-me as patas, e me deixou pelado,
De vontade de pelado.

Achei que tivéssemos casado alí mesmo.
Mas não casamos porque...
Porque?!
Porque... porque... porque
Infernos de porquês.

Porque não tinha padre, pronto.
Por isso.

E se quer saber,
Acho melhor que nem te lembres.
Pois vale mais a preciosidade do esterco
Do que estas palavras desconexas.
Ficas lindo ao lado do teu pássaro.
Continues, pois.


Claudio Rizzih

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Despedaço.

Guardou as bailarinas e os pierrôs velhos
Na caixinha de música bordô.
Deixou tintas e também tripas
Pra quando voltasse.
Doía por toda a partitura.
Dedicou algum pus e algumas lágrimas.
Dançou a última ciranda,
E ficou no chão o suor do artista.
Nasceram ali árvores de enamorados
E vácuos de adeus, e pênis e vaginas
Os frutos viscerais do homulher da arte.
Enraizaram depressa alguns desamores
Mas, fez-se outono precoce.
Cruzou o velho porto,
O nômade
A criatura
O animal – bicha
O michê-langelo.
Aí, fez uma pausa para morrer afogado
Nos seus náufragos Amores.
Ouviu lá longe a marcha e os trompetes
Chamando pro mundo o seu nome.
Num ímpeto, juntou seus pedaços
Deu um murro no cavalo,
E fugiu com o circo.
Foi engolir as mãos e aplausos da platéia
E mastigar um por um
Do respeitável público.
Senhoras... e senhores.  

Claudio Rizzih.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Remate

Desaire de minha parte oferecer-te o vício
Propondo acreditar ser trivial quando na verdade
Poderia lhe por as faces ralo á baixo.
Amaste-Me baixinho, na fumaça
E o teu Amor me fazia chorar cinzas
Aleijando-me por completo.
Cantavam os desafinados, as luas, e as pneumonias.
Tu entoavas hinos ao Amor,
E eu estragava tudo com meu contra canto nada harmonioso.
O que foi a vida até agora, Amante?
Tanto fiz, andei e corri
Tantas vezes morri
E por que então viver se não para Amar?
Traz as manhãs, os cafés, o aljôfar
Inebria tuas vestes com meu hálito
Porque na noite seguinte eu já terei sumido
Sem deixar epílogos plausíveis
Nem papéis de bilhetes e borrões.
Apenas o remanescente de um quase “nós”
Junto de algumas palavras e canções num cinzeiro.
Pusemo-nos na boca, e saboreamos toxinas
Um misto de saliva, cereja, nicotina.

E o meu cigarro me queimou os dedos.
E o teu Amor me queimou o coração.

Claudio Rizzih.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Sementeira.

Traça de pelúcia.
Terço de madeira.
Vestidinho para a pomba gira.
Não posso mais subir este morro.
Com borrifadas de flor da noite
Tu penteias-me a boceta.
Eu não tenho vagina.

Tu me acaricias ao mesmo tempo em que és as minhas chagas.
Tu és o meu Amor e a minha doença.
Vê?
Sente como fede?
É doce.


Claudio Rizzih.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Assassinato.

Deitei-me ao teu lado, nu das faces todas
Despido de tecidos e argumentos.
Salivei ao te ver sorrir, e te reconheci artista
Enquanto modelavas-me as linhas retas (ou tortas).
Dançamos ao som da ópera que brotava das frestas
Não que tenhamos realmente ouvido algo.
Mas há tantos violinos no nosso silêncio
Que é de fato um grande concerto a fusão dos nossos corpos.
E eu chorava enquanto beijava teus pés
E tu me recolhias as lágrimas.
Com anzol puxava-me o rosto
Para então estuprar meus sabores.
Reinava no desalinhar a boca
Os corações, os pelos e as desculpas
Procurando uma absolvição
Por tudo aquilo que num vão foi empilhado.
Nós éramos desta forma, os segundos, os minutos
O compasso, os cheiros, a tristeza e o gozo.
Concluí que eras tu a tarrafa, e eu a presa medonha.
Tamanho calor me fazia suar lodo.
Tu me Amavas e me mastigavas.
Eu te digeria.
Um processo sem demora
Por toda a geometria gustativa.
E eu então chorava enquanto tu me matavas
E em lapsos das dores, sorria, enquanto ia morrendo.
Eu Te Adoro em toda a parte.
Deus abençoe a sujeira.

Claudio Rizzih.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dezenove Invernos.

Intensos, revoltos, poéticos, bucólicos. O cinza lá fora, e as cores em nós. Vibrantes. Multicores.


Saravá, Amantes! Muito Obrigado por tudo! Pelas palavras, e preces, e lágrimas, e calor e novembros.
Eu os Amo.
Sem mais.
Quanto as formalidades...
Ao Deus Pai, à majestade e aos governadores do meu reino, aos protagonistas da minha comédia e tragédia constante, ao Grande Amor da Vida, aos tripulantes.
Lhes dedico a razão do movimento matinal das pálpebras destes anos todos, e os meus obrigados milhares por me encher os pulmões de ar.
Deixo minha palavra aqui, na promessa de esboçar palavras melhores numa outra ocasião, que alcance numa forma mais precisa o quanto sou grato á estas criaturas. 

Da sorte, não sei.
Mas Oxalá que haja Amor, Vida e CORAGEM, para que eu possa chegar aos cem.
E que vocês ainda estejam comigo! De forma ou de outra.


Muitas Felicidades em muitos anos de Vida.
Eu sobrevivi!

AMEMOS.
Claudio Rizzih.

domingo, 24 de abril de 2011

Pretextos para explicar os Pretéritos.

Nos teus braços havia um trapiche.
Decidi então caminhar pela madeira escorregadia, úmida e cheia de limo.
Ameacei cair durante o percurso, mas me segurei forte o bastante em algo abstrato que tamanha força me deu.
Quão lento foi o trajeto, saudoso. Quero dizer, frio de saudades. Mas havia calor na voz que nascia da canoa, me alcançava na marola, e pescava-me.
Ocorreram-me tantos pensamentos. Céus... Quantos!
Desconfiei que eu não soubesse o que era vida.
E não sabia. Mas sabia do que se tratava “viver”.
Havia água doce na placenta da mãe vida, e eu, o descompasso, por ordem natural de pai destino, fui precoce, e me auto-pari.
Pari-me para que nos teus braços eu descobrisse logo o desabrochar do Amor. Para que conhecesse todo e qualquer sentimento que não fosse efêmero. Para tornar-me homem.
Teus braços bailavam jogando as redes de longe, para que eu corresse, pulasse, e me embolasse em ti e na tua vida.
Pois no rio vivia um peixe. E nos teus braços um trapiche.
E eu corri.
E corri, e saltei, e caí.
E morri afogado.
E morri de Amor.
E venho morrendo, então, de Amor, todos os dias.


Claudio Rizzih.

terça-feira, 22 de março de 2011

Cruel

Por que é que tem que ser tão fraca? Que me deixa perder por pouco?! Por tão pouco?!
Que em qualquer esquina me pode raptar?! Que está nos cantos, nos banheiros, nos pés, debaixo dos braços, no olfato. Por que?! Por que tem marretas nas mãos capazes de destruir construções de períodos longínquos?
Pergunto-me sem pausas, por que.
Tentei -e tento- por inúmeras vezes fugir, abrigar-me. Mas os abrigos me socorrem por pouco tempo, perdendo-me por algo que dura menos tempo ainda.
O olfato junta-se com a visão, e me põe nas idéias um suicídio carnal. Nem mesmo preciso tocar pra perder as estribeiras! Está ali, perto do que posso ver, sentir, cheirar. Humanamente cruel.
Talvez seja -mais uma vez- esta minha condição de "excesso" a causa disso. Não sei ser pouco, nem sentir pouco, nem estar pouco. Preciso me afogar, e dependendo do caso, retardar a imersão.


A existência do sexo é cruel! Ou a força que ele exerce sobre mim, é.


Aviso aos humanos: Lavem-se com os mais fortes perfumes! Abusem de todos os cheiros artificiais existentes. Escondam os seus cheiros de gente de mim. Ou estejam em estado inodoro. Amputem seus pés, e não tenham pêlos. Passem pela minha vida, mas não cruzem com a minha tara. Minha libido pode ser você.


Porque a carne não é fraca.
Fraco sou eu.
Minha carne é sua.
Me Ame aqui.




Claudio Rizzih.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Pensamentos póstumos de um recém nascido.

"A vida tem seus altos e baixos", diz o ditado popular.
Talvez a sua vida seja assim. Talvez a vida seja assim.
Eu, optei por fazer da minha vida,uma roda gigante. 
Luz, poesia, brilho, romance, medo e perigo.
A segurança é ridícula. Quase inexistente.
Dá medo de cair. Calafrios, ás vezes.
Ignoro.
Aceito definitivamente a possibilidade de cair, ganhar sequelas, ou morrer.
Pois que eu morra.
Desde que minha vida passe aos meus olhos na velocidade de uma roda gigante. 
Que eu possa ver de perto os Amantes se beijando, e beijar a idéia de um dia Amar de novo.
Desde que eu veja o brilho, a luz.
As luzes.
Que eu morra. 
Desde que o Amor jamais morra em mim, e que assim, se morra em poesia.


Pois se as voltas que a vida dá, mesmo que muitas, são curtas...
Então que o que se faz em vida, seja gigante.


Claudio Rizzih.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sambódromo

Desfilam sem intervalo verdadeiras escolas de samba pelas avenidas que me cercam, com pessoas fantasiadas, maquiadas e camufladas em tecidos e brilhantes que me impedem às vezes de reconhecer sua identidade, ou descobrir quem são verdadeiramente.  Por vezes isto me agrada, outras não. Por eu ser este excesso o tempo todo, às vezes preciso ser cercado do nu que simplifica o contato e a troca de sentimentos. Pois canto então, o mais harmonioso samba de Amor, ás musas que bailam á minha volta, que desde seus primeiros passos ás minhas vistas, despiram-se dos esplendores gigantescos e mostraram-se magníficas pelo simples.
Eu, jurado de mim, lhes dedico as notas mais altas, e aguardo ansioso por vê-las desfilar novamente, alegrando-me com sua existência, e torcendo para que este seja um ciclo permanente.  
Verdadeiras rainhas da (minha) bateria, dançando ao som da batida do meu coração.
Guia. Mulher. Humana. Amante. Amiga. Negra. Loira.
Sambista.
Amada.

Cláudio Rizzih.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Brilhemos

(Notícias do Velho Porto, parte II)

A mistura dos nossos cheiros de gente, de humanos e artistas. 
As nossas tessisturas se confundindo 
Numa fusão de notas que não se pode reconhecer com exatidão. 
Somos alma. 
Somos Luz e reluzimos alma.
Somos os alguéns que nos aplaudem. E aplaudimos sem parar as nossas fontes diversas de Amor ímpar e Arte bruta 
Que lapidamos em nós mesmos a cada canção, movimento, palavra. 
Aplaudimos sem parar o fato de ter um sentido maior a nossa existência de tantas incógnitas: 
Encher de luz toda geometria do mundo, 
E alcançar os corações sedentos de brilho e calor.


Claudio Rizzih. 


Em homenagem aos meus Amigos de alma, palco e elenco da Cia. Grito de Teatro, pelo Sucesso absoluto de "POP, O Musical".
Saravá!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Glória

Nunca gostei de ser consolado. Nem mesmo quando criança. Quando me entristecia com algo ou alguém, me isolava, e me permitia sentir as minhas dores sozinho. Devo dizer que sou apaixonado por abraços, e em horas difíceis eu até os aceito. Mas, dispenso toda e qualquer palavra; Dispenso todas elas.
Hoje é (mais um) dia, em que acordei insone, beijado e abraçado pela saudade.
Focando meu olhar ao passado, em uma fração de segundos revejo muitos momentos de glória em minha vida, momentos indescritivelmente emocionantes. Mas, se eu tivesse a oportunidade de poder reviver um dia de minha vida, trocaria as platéias lotadas, as premiações, as declarações de Amor, e os dias de gargalhadas incessantes por momentos que são para mim de glória muito maior (pena, só agora eu ter me dado conta do quanto).
Voltaria em uma tarde destas, onde ao passar pelo portão, eu o avistava na esquina, com uma mão no bolso, e a outra segurando as sacolas que traziam pão quentinho da padaria. Ou em um dia qualquer, antes de ir pro banho, passasse eu pela lavanderia pra pegar a toalha, e da janela o visse deitado, ouvindo o seu rádio de bolso apoiado sobre a barriga protuberante. Escolheria reviver o fim de qualquer dia, que se encerrasse pelo cheiro do café novo que ele fazia, apoiado nos armários. Talvez uma daquelas manhãs em que ele me acordava absolutamente pontual para algum compromisso. Poderia ser uma destas manhãs, mas de forma melhor: Um daqueles compromissos em que ele iria comigo, todo bonitão, cheiroso, de terno e tudo! Como no dia em que fomos fazer a minha identidade.
Ah, se eu pudesse voltar...
Ouvir mais uma vez a sua risada, ou a sua bronca quando brigava com meus irmãos. Sentir o seu cheiro muito particular. Quem me dera a oportunidade de sentarmos juntos á mesa mais uma vez para almoçar, no nosso cantinho, meu e dele, cadeiras lado á lado, enquanto eu o ouvia mastigar daquele jeito esquisito, por causa da idade.
Ele me amou de todas as formas possíveis. Ajudou-me em tudo o que lhe estava (ou não) ao alcance. Defendeu-me feito leão. Me dedicou o Amor mais puro que meus lábios puderam experimentar, que meus olhos presenciaram, e que me pudesse encher os ouvidos. O Amor maior do mundo. E eu, tentei lhe devolver na mesma medida todo este Amor, mas jamais será o suficiente. Nada do que eu fizer, vai chegar perto daquele Amor que eu sentia num simples beijo, ou abraço quando voltava de viagem. Este Amor maior, que me amou por quem sou.
Foram oitenta anos de vida. Oito meses acamado, o que tornou á sua partida um processo menos doloroso, por nos fazer acostumar com a idéia de não tê-lo por perto.
Nunca gostei de ser consolado. Talvez, ao ler estas palavras, você venha até mim para dizer que “são coisas da vida” ou que “ele está bem melhor do que nós” ou que “ele está no céu e feliz”. Eu sei disso tudo. Agradeço seus sentimentos, mas dispenso suas palavras.
Porque aceito sim, de verdade, a morte do meu avô. Mas, jamais aceitarei o fato de não estar mais com ele. E isso, palavra nenhuma pode dar consolo. Palavra nenhuma vai me dar a glória de tê-lo de volta. Nem mesmo por apenas mais um dia.

E se hoje, alguém admirar tudo o que faço, nos palcos e na vida, deve dedicar aplausos fortes e intermináveis. Não á mim, mas ao Sr. Abílio Canuto Pereira. É á ele que devo tudo o que sou, tenho, e serei futuramente. Por me amar todos os dias de minha vida mais do que a si mesmo, e por desde o início, calçar o chão onde eu pisaria.

Aplausos!!!

Um Beijo, Vô.
Te Amo. Agente se vê!

Junior,

Claudio Rizzih.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Sentimental e Viscoso.


Há poesia pura no sexo. No gênero e no ato. Em todas as suas formas. Em toda a sua duração. É lamentável haver ainda tantos tabus com tantas coisas. Alguns enxergam desejo, outros reprodução, passatempo, ou nem mesmo o enxergam como algo necessário. Porém há quem julgue determinada ânsia e querer uma aberração.
Pois, junte-se á mim todo aquele que for á favor de toda manifestação sexual de desejo e Amor.
Liberte-se de si! Dos seus conceitos cheios de poeira e pré-conceitos saídos do forno. Vamos além! Vamos pintar e escrever!
Desenhemos as curvas, o desenho dos ossos, a disposição dos rostos. Permita-se descobrir texturas! Cabelos, pêlos, dedos. Cílios, lábios, mamilos e barbas.
Dance! Deite, role, agache, estique, abra, feche, enrijeça, relaxe.
Exponha! Silhuetas, caretas, gemidos, ruídos, suspiros, gritos, manifestações sonoras desconhecidas. Explode! Tapeie, puxe, belisque, arranhe , implore, suplique!
Enlouqueça. Perca-se no mais estimulante e poético sentido: O olfato. Delire no perfume, no hálito, no corpo, na dela, no dele, nos nossos, nos deles, nas dobras, nos pés, nos lençóis.
Suicide-se.
Sinta fluir.
Deixe emergir.
Sentimental e viscoso.
Respire, Ame.
E então, comece tudo de novo.

Mesmo que seja todos os dias com a mesma pessoa.
Mesmo que seja todos os dias com alguém diferente.
Mesmo que seja só na sua imaginação, ao avistar delícias na rua.
Mesmo que seja com você mesmo.

Mas, que seja.
Façamos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Esmalte

Para mim, o Amor acontece uma vez só.
Depois, fazemos ensaios e variações sobre ele.
Saímos do nosso primeiro verdadeiro Amor com um legado que consiste em bagagens abarrotadas de roupas mau passadas e manuais de como funciona isso ou aquilo. Em relacionamentos com um outro alguém depois de já ter amado, tem toda aquela história do “Olha, eu já passei por isso, então eu acho melhor...” E é aí que concluo que realmente o Amor acontece uma vez só.
Amor é quando você não passou por nada disso, quando você se arrisca com tudo pela primeira vez: lambe a faca sem medo de cortar, faz Amor numa cama de pregos, confia com os olhos vendados por um pano imerso em ácido. Quando não se sabe o que fazer, como agir, o que dizer. Quando não se define, nem se procura por definições (lembrando, claro, que este é apenas o meu desgraçado ponto de vista).
Por mais harmonioso que ás vezes possa ser um relacionamento, sempre será um campo de concentração: você nunca sabe o que te espera.
O Amor é uma garrafa de whisky, um colchão de molas, uma ratoeira, um vidro de esmalte vermelho.
O Amor que lhe pintou as unhas com a vivacidade rouge, é o mesmo Amor que lhe tirou o brilho com acetona fresca. Azar o seu ter deixado resíduos debaixo da unha só pra poder mordiscar depois. Não é saudável, sabia?! Mas, convenhamos. Quem é que disse que conseguimos controlar o impulso?
Pego-me perguntando: Então, gostarias de não ensaiar variações e arriscar tudo de novo sem conhecer o terreno?
A verdade é que eu não sei a resposta. Isto vai ficar martelando em minha cabeça, mas tenho certeza que não vou chegar á conclusão alguma.
Contudo, mesmo sendo o Amor um acontecimento único, felizes somos nós que podemos Amar de novo. Seja ensaiando, variando, ou sob a felicidade terrível de descobrir que eu estou errado, e que se pode sim, mesmo depois do Amor mais forte de uma vida, repetir á dose.
A dose de whisky, de esmalte.
Os “Eu Te Amo” claustrofóbicos.
As queimaduras de terceiro grau resultantes dos sexos em ebulição.
O choro maricas diante da reprise do Amor em cena.
Tragédia. e comédia. Horror e pornografia.
Amemos.
Morramos.


Cláudio Rizzih.

                                                                             

Encerro com uma das obras mais lindas de Picasso, L'étreinte (1903), que eu interpretei de forma muito especial, e senti tocar-me de acordo com as palavras que deixei acima. 


"O que será? Que Será? Que vive nas idéias desses amantes
 Que cantam os poetas mais delirantes
 Que juram os profetas embriagados
 Está na romaria dos mutilados
 Está nas fantasias dos infelizes
 Está no dia a dia das meretrizes
 No plano dos bandidos dos desvalidos
 Em todos os sentidos. Será, que será?
 O que não tem decência, nem nunca terá!
 O que não tem censura, nem nunca terá!
 O que não faz sentido..."


(Chico Buarque)

Abraços calorosos, 

Claudio Rizzih.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"Âncora", e outras notícias do velho porto.

“Atenção senhores  passageiros da Auto Viação Catarinense, com passagem marcada para todas as horas, carro procedente dos seus sonhos, com destino á Degraus, Recomeço, Suor e Vitória: Portão de embarque C, plataforma 18. O TERRI deseja á todos uma boa viajem!”

Não é bem isso que diz a voz da moça da locução, mas é o que eu ouço. Mais uma vez me encontro no meu porto de emoções, resgatando o náufrago que sou para retomar viagem e atracar em um cais de outrora.
Não minto. Tempestades revoltas me assustam e nuvens cinza, mesmo lindas, me põem receoso. Mas já não há o que temer, tendo antes viajado por mares desconhecidos e descoberto a aparição fiel do sol ao fim da volta em meu próprio mundo.

Aportemos!

Claudio Rizzih.



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Aos master queridões admiradores dos meus trabalhos, aí vem coisa nova! Estréia no dia 13 de Março a nova temporada do Its Séries da Rede Record (Ric), pra toda Santa Catarina e Paraná pela televisão, e pra todo o Brasil pelo site da revista Atrevida. 
No elenco, euzitcho rs, Claudio Rizzih (Felipe), Giseli Ballestreri (Carol), Jholl Bauer (Tato), Thalita Meneghim (Mel), Lucas Duarte (JP), Tiffany Lastrucci (Gabí), Gabriela Fernandes (Cris) e Beppz Fontanella (Neto).
A série vai abordar temas fantásticos, e isso é tudo o que posso adiantar (se eu não quiser perder a língua e os dedos! rs).
Em Santa Catarina, o Its Séries vai ao ar aos Domingos, ás 11h30. No Paraná, aos sábados no mesmo horário. Já na Tv Atrê (Atrevida), dá pra assistir quantas vezes quiser, em qualquer lugar do Brasilsão e do mundo, rs.
Conto com vocês, ligados na telinha pra curtirmos juntos esse novo projeto que está sendo maravilhoso! Estamos trabalhando com muito carinho e dedicação pra levar algo bem massa pra vocês, sob o comando do nosso -antes de tudo, amigo- e diretor, Phil Rocha, com toda a equipe da Record empenhada! E como diz o meu grande amigo Jholl, "bóra-que-vamo!" rs.

Um milhão de obrigados e abraços esmagadores.

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E pra finalizar o post, deixo aqui uma das obras de um dos meus ídolos, Frida Desintegração da Perfeição Kahlo. 
A obra é "Viva La Vida", de 1954. Quem conhece o trabalho de Frida, nota que esta é uma obra um tanto diferente da maioria de seus quadros. No entanto, é no mínimo inspirador, para aqueles que podem enxergar muito além.
Vale ressaltar a curiosidade de que a banda Cold Play, intitulou seu álbum e uma de suas músicas de maior sucesso de "Viva La Vida", inspirados pela obra de Frida. 
Deu pra entender  o quanto tudo isso quer dizer, se os seus olhos buscarem além?
Pois então, VIVAM! Agora, já! Viva La Vida!

 Viva La Vida. Frida Kahlo, 1954.
Claudio Rizzih.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Annexe Secreta.

Amigo Leitor...
Conheça –ou, se você já a conhece, reencontre- Annelies Marie Frank, a nossa Anne Frank. Trata-se de uma menina adorável, nascida em Frankfurt Am Main, no dia 12 de junho de 1929. Tendo como cenário de sua vida a segunda guerra mundial, a condição de Judeus obrigou Anne e toda a família Frank (O pai, Otto Frank, a mãe Edith Frank e a irmã Margot Frank) a morar em um esconderijo, que Anne chamou de Anexo Secreto. E foi lá, escondida das calamidades e barbaridades que a guerra lhes oferecia por meio de sons, imagens, gritos e bombardeios, que Anne extravasou seus sentimentos de menina-mulher por entre as linhas de seu diário.
Seu maior sonho era ser escritora e jornalista. Infelizmente - e encontre nesta palavra todo o meu sincero pesar, Anne faleceu no campo de concentração Bergen-Belsen, sozinha, longe dos pais e da irmã que falecera diante de seus olhos. Ambas as vítimas de tifo. Mas, mal podia imaginar Anne que ali, no Anexo Secreto em companhia de Kitty (era assim que se chamava seu diário) escreveria o documentário mais emocionante, sincero e comovente da segunda guerra mundial, tornando seu sonho realidade sem que ela pudesse ao menos cogitar esta possibilidade em tamanha grandeza. O Diário De Anne Frank foi traduzido para nada mais nada menos do que sessenta e oito línguas em todo o mundo, e é hoje um dos livros mais lidos da história.
Conheça esta vida de perto, amigo leitor. Tranque a porta e viva conosco por dois anos no Anexo Secreto. Descubra o Amor em sua forma mais pura, através desta menina.

Imagem do real Diário De Anne Frank.

Agora, peço sua licença para fazer a minha singela homenagem particular á Anne, da mesma forma que fazia diariamente junto á Kitty.

7 de Janeiro de 2011.

Querida Anne.

Antes de qualquer coisa, seja bem vinda á minha casa.
Ontem, terminei de ler o seu diário. Como escreve maravilhosamente bem!
Preciso dizer que me encontrei em muitas linhas das suas palavras. Para falar a verdade, em quase todas! Imaginei o quanto foi triste sentir-se incompreendida, quando tão bem te compreendo e como queria poder ter lhe conhecido.
Peter tem razão. Tens lindos olhos! Mas o seu sorriso é o que ganha a mim e aos que te conhecem.
Acompanhei tudo o que aconteceu nestes tempos todos com a sua mãe. Como um alguém que olha de fora, vejo que ela era uma boa pessoa e que muito lhe amava. Mas há coisas que só percebemos depois de certo tempo, ou às vezes, nunca percebemos.
Oh, não me posso esquecer da Sra. Quackenbush! Quack Quack Quack! Desatei em gargalhadas com a sua estória, como é deliciosa de se ouvir! Pois eu sempre fui tagarela feito você!
Oh Anne... Há tanto que eu queria poder te dizer. Neste tempo todo em que tive em minhas mãos seu diário, pude trancar-me de verdade atrás da porta falsa, e viver tudo o que você descreveu. Com palavras não sei dizer como tudo se fez real em minha mente.
Finalizo –mesmo sentindo acumulado ainda muitas coisas as quais lhe gostaria de falar, dizendo que em todo o mundo, és uma das escritoras que mais admiro.Posso te sentir perto.
Sinta-se aplaudida, e ouça meus gritos honrosos ao seu nome.
Com Amor,


Seu Cláudio Rizzih.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pobre Podre Viúva.


Esta era a terceira vez que Valéria enterrava um marido.
Ulisses, Humberto, e agora Milton. Mas, relembremos o começo de toda a história. Contava trinta e um anos quando conheceu Ulisses. Namoraram, noivaram e dentro de alguns meses já estavam casados. Depois do clássico mar de rosas que levou menos de um ano, Ulisses passou a mostrar suas reais faces. Trabalhava pela manhã e tarde, e revezava suas noites e fins de semana entre os bares e a sala de casa – onde também bebia. As noites acabavam quase todas da mesma forma: móveis quebrados, gritos, sujeira por toda parte, e claro, alguns hematomas em Valéria. Ao fim de dois anos, Ulisses voltava de uma de suas noitadas, quando seu carro colidiu com uma carreta, reduzindo ele ao mesmo que os estilhaços dos vidros.
Mesmo que no fundo houvesse agora um alívio para aquela mulher que tanto amargurou, tratava-se de seu primeiro Amor. Do homem que um dia á ela dedicou palavras e tempo e carícias. Vestiu seu mais amargo preto, e enterrou então o amado desgraçado, que era o único culpado por agora, fazer rolar no rosto de Valéria lágrimas tão amargas quanto às vodkas que lhe embebedaram por muito.
Voltou á casa da mãe e da irmã mais nova. Salete, a caçula, estava crescendo e florescendo para a vida. Passou a aparecer com um namorado em casa; Eram ainda duas criaturas muito jovens. Não contavam mais que quinze anos. Por este motivo, era Humberto, o pai de Leonardo que o levava á casa de Salete. Vez ou outra entrou para tomar um café com dona Vera, e com Valéria. Bom, deixemos de ensaios. Apaixonaram-se, e Valéria enxergou ali, a possibilidade de recomeçar. Sob a bênção apreensiva de sua mãe, foi morar com Humberto. Sentiu-se cheia de uma alegria indescritível ao ver que podia sim, ser feliz de novo. Ele, um homem reservado e tímido, dedicou-se á ela com sinceridade. Planejaram aumentar a casa e ter um filho.
Naquela quarta-feira chuvosa, por uma ligação, disse á Humberto que se atrasaria, em função do grande movimento no salão –onde trabalhara desde muito moça- e ainda teria de fechar o caixa. Assim o fez. Ao aproximar-se o fim da noite, mais ou menos onze horas, passou no restaurante e comprou algo para jantar. Chegou em casa, foi aos fundos, pegou uma toalha, secou os cabelos, tirou os sapatos, e entrou. Na sala, Humberto, adormecido, com as pernas envoltas por um lençol, e o pescoço envolto pelos braços de uma outra mulher. Dormiam de forma tão serena que, pareciam eles os amantes que protagonizam a história de Humberto. Valéria permaneceu parada, com os batimentos mais acelerados que os de um rato. Está aí uma bela comparação, pois era bem desta forma que se sentia Valéria agora. Insignificante como um rato, diante da coragem de Humberto. Quem primeiro acordou, foi a vadia, ao som do choro desesperado de Valéria. Sacudiu os braços de Humberto, e já ia catando suas roupas. Resume-se que, nossa guerreira apenas depositou a aliança de ouro sobre á mesa de centro, e bateu às faces de Humberto a porta, que nunca mais abriria. Sua mãe foi a responsável por pegar seus pertences e dar um bom tapa na cara do sujeito.
De volta á casa da mãe, os anos agora passaram a voar. O sofrimento e as mágoas corroíam suas vísceras todos os dias, era inevitável. Quatro ou cinco anos depois de sair da casa em que morava com Humberto, recebeu a notícia de que falecera vítima de um câncer. Nem mesmo se maquiou. Vestiu seu preto, pesado e insolúvel, exatamente como o choro da viúva, e partiu ao encontro do jazigo, onde enterraria mais uma vez o Amor.
Encontramos então um intervalo de quase cinco anos. É verdade que Valéria conhecera outros homens, mas não teve com eles nada sério. Nada que pudéssemos chamar de relacionamento. Isto, até conhecer Milton. O primeiro passo foi Valéria contar absolutamente tudo que lhe houvera acontecido até então, ao passo que Milton, por sua vez, disse que faria tudo diferente. Não iriam morar juntos, prometeu que iria devagar, e que iria lhe provar que poderia ser diferente. Tudo e todos a sua volta insistiam que não era coerente aventurar-se mais uma vez. Apenas Vera, sua estimada mãe, lhe dedicou esperanças e preces, torcendo para que desta vez fosse feliz, aquela pobre criatura á quem chamava filha.
Começava então o processo de quebrantamento de um coração petrificado. Algo que não foi difícil. Valéria era criatura doce, e que se visto valer á pena, Amava com toda sua alma.
Ele lhe foi muito bom. Dizia que a Amava todo o santo dia, cobria-lhe de presentes carinhosos e flores. Nem mesmo a rotina de encontrar-se com tanta freqüência os fez esfriar. Dois anos. Dois anos de namoro, e absolutamente nada de ruim lhes havia acontecido. Agora todo receio havia ido embora, e Valéria enchia os olhos de lágrimas ao agradecer aos céus por aquele homem. Em um dezembro, Milton pediu sua mão em casamento. Ela, claro, aceitou. Não queriam festas, nem comidas, nem nada do gênero. Apenas uma cerimônia singela e o que lhes era de maior importância: casar-se nos corpos, corações, e papéis oficiais.
Era o dia do casamento, e ela pensava á todo instante como ele lhe havia sido sincero, e transparente. Dois anos depois e eles nem se quer moravam juntos. Agora sim, sentia-se preparada para entregar-se como nunca antes houvera feito, e Amar mais do que tudo e todos. Levada por Marcos, seu grande amigo, chegou á casa de Milton. Farta de preto, usava um vestido vermelho, que realçava sua pele bronzeada e bem cuidada. Encontrou Milton no quarto, sentado ao pé da cama.

- Meu Amor, vamos? Já está na hora. E então, gostou? Estou bonita?
- Está linda, Valéria.
- Está tudo bem, querido?
Depois de um silêncio enlouquecedor, disse:
- Na verdade, não. Eu Te Amo. Te Amo demais, e quero estar sempre contigo. Tudo entre nós está tão bem que, tenho medo que se casarmos tudo se acabe em brigas e desgaste. Acho que mesmo com tanto tempo, ainda sim, nos precipitamos. Melhor deixarmos como está. Eu preciso de verdade de um tempo para organizar meus pensamentos. Me desculpe, meu Amor.
Houve de novo silêncio. Valéria o quebrou:
- Está bem.

Foi a cozinha, e voltou com as mãos escondidas atrás do corpo. Com um sorriso, pediu que Milton a ajudasse a abrir o zíper do vestido. Ele levantou-se, e mesmo sem muito entender, se pôs de pé para fazer o que Valéria queria.
Valéria materializava, tornava externo, extravasava agora, os seus sentimentos exatamente como os tinha por dentro. Dilacerada. Fez de Milton um pano de cortes muitos. Tudo que se podia ouvir eram gritos desesperados, dele e dela. Tudo o que se podia ver, ao final, eram as escleróticas dos olhos de Valéria. Nem mesmo os dentes escapavam das manchas vermelhas de mágoa e ódio. Ligou para a polícia: “Matei o meu Amor”. Bateu o gancho.
Deitou-se ao lado do corpo furado de Milton, encolheu-se, e nem mesmo chorou. Apenas ficou quietinha, enquanto esperava a polícia, que demorou, e só chegou por ter sido chamada por Marcos, seu amigo que diante dos gritos, entrou para ver do que se tratava.
Talvez o erro fosse dela, de se entregar tão facilmente. Talvez não. Talvez fosse uma desgraçada, que veio ao mundo com uma sina terrível. Ou talvez a culpa fosse dos homens que lhe prometeram tanto e apenas decepção lhe deram. Isto cabe á cada um fazer seu julgamento. Ou não. Talvez não nos caiba.
Matou o seu o Amor. E para que não se deixasse trair por si mesma, permitindo-se ter qualquer sombra de esperança, trancou-se atrás de grades. Preferiu assim.
Fardo pesado e insolúvel. Exatamente como no choro da viúva.
Pesado como o seu sofrimento de uma vida toda.
Insolúvel, exatamente como seu líquido lacrimal.
Podre.
Pobre Víuva.



Claudio Rizzih.