terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Glória

Nunca gostei de ser consolado. Nem mesmo quando criança. Quando me entristecia com algo ou alguém, me isolava, e me permitia sentir as minhas dores sozinho. Devo dizer que sou apaixonado por abraços, e em horas difíceis eu até os aceito. Mas, dispenso toda e qualquer palavra; Dispenso todas elas.
Hoje é (mais um) dia, em que acordei insone, beijado e abraçado pela saudade.
Focando meu olhar ao passado, em uma fração de segundos revejo muitos momentos de glória em minha vida, momentos indescritivelmente emocionantes. Mas, se eu tivesse a oportunidade de poder reviver um dia de minha vida, trocaria as platéias lotadas, as premiações, as declarações de Amor, e os dias de gargalhadas incessantes por momentos que são para mim de glória muito maior (pena, só agora eu ter me dado conta do quanto).
Voltaria em uma tarde destas, onde ao passar pelo portão, eu o avistava na esquina, com uma mão no bolso, e a outra segurando as sacolas que traziam pão quentinho da padaria. Ou em um dia qualquer, antes de ir pro banho, passasse eu pela lavanderia pra pegar a toalha, e da janela o visse deitado, ouvindo o seu rádio de bolso apoiado sobre a barriga protuberante. Escolheria reviver o fim de qualquer dia, que se encerrasse pelo cheiro do café novo que ele fazia, apoiado nos armários. Talvez uma daquelas manhãs em que ele me acordava absolutamente pontual para algum compromisso. Poderia ser uma destas manhãs, mas de forma melhor: Um daqueles compromissos em que ele iria comigo, todo bonitão, cheiroso, de terno e tudo! Como no dia em que fomos fazer a minha identidade.
Ah, se eu pudesse voltar...
Ouvir mais uma vez a sua risada, ou a sua bronca quando brigava com meus irmãos. Sentir o seu cheiro muito particular. Quem me dera a oportunidade de sentarmos juntos á mesa mais uma vez para almoçar, no nosso cantinho, meu e dele, cadeiras lado á lado, enquanto eu o ouvia mastigar daquele jeito esquisito, por causa da idade.
Ele me amou de todas as formas possíveis. Ajudou-me em tudo o que lhe estava (ou não) ao alcance. Defendeu-me feito leão. Me dedicou o Amor mais puro que meus lábios puderam experimentar, que meus olhos presenciaram, e que me pudesse encher os ouvidos. O Amor maior do mundo. E eu, tentei lhe devolver na mesma medida todo este Amor, mas jamais será o suficiente. Nada do que eu fizer, vai chegar perto daquele Amor que eu sentia num simples beijo, ou abraço quando voltava de viagem. Este Amor maior, que me amou por quem sou.
Foram oitenta anos de vida. Oito meses acamado, o que tornou á sua partida um processo menos doloroso, por nos fazer acostumar com a idéia de não tê-lo por perto.
Nunca gostei de ser consolado. Talvez, ao ler estas palavras, você venha até mim para dizer que “são coisas da vida” ou que “ele está bem melhor do que nós” ou que “ele está no céu e feliz”. Eu sei disso tudo. Agradeço seus sentimentos, mas dispenso suas palavras.
Porque aceito sim, de verdade, a morte do meu avô. Mas, jamais aceitarei o fato de não estar mais com ele. E isso, palavra nenhuma pode dar consolo. Palavra nenhuma vai me dar a glória de tê-lo de volta. Nem mesmo por apenas mais um dia.

E se hoje, alguém admirar tudo o que faço, nos palcos e na vida, deve dedicar aplausos fortes e intermináveis. Não á mim, mas ao Sr. Abílio Canuto Pereira. É á ele que devo tudo o que sou, tenho, e serei futuramente. Por me amar todos os dias de minha vida mais do que a si mesmo, e por desde o início, calçar o chão onde eu pisaria.

Aplausos!!!

Um Beijo, Vô.
Te Amo. Agente se vê!

Junior,

Claudio Rizzih.

3 comentários:

Leonardo Távora disse...

Uma das coisas boas da vida é a gratidão. Quand somos sinceramente gratos, somos capazes de ser feliz, pois nos faz tão bem quanto à pessoa que recebe nossa gratidão.

Eu ainda tenho meu avô, bastante lúcido e ativo ainda, mesmo com seus 96 anos de idade. Ele dirige, mexe no rádio (Conserta mesmo) e tem uma cultura acumulada pela vivência que eu tento sugar o quanto posso.

Não é fácil a relação, pois, por mais que existam coisas que aproximam, o choque de gerações é inevitável. Os anseios não são os mesmos. Enquanto estou nos anseios da juventude, ele já está cansado, calejado pelo tempo e pela vida.

Mas eu sei que sentirei quando ele tiver que partir. Como todo humano, tenho anseios e sentimentos que muitas vezes são maiores que eu mesmo. E sei que o sentimento da saudade, que já me acompanha por alguns outros motivos, será imensamente maior quando eu não puder mais fazer minhas discussões filosóficas com aquele que não é ídolo, nem pedra fundamental, mas que tem o posto maior de ser meu amigo, ainda que laços de parentesco nos tenham unido por toda nossa vida.

Belíssimo texto, Claudio! Espetacular os sentimentos apresentados aqui.

Andresa Alvez disse...

Muitas vezes, não somos compreendidos por não querermos consolo. Somos tachados de estúpidos, mals agradecidos, grossos e entre outros adjetivos. Porém, ninguém sabe a dor que nós sentimos. Ninguém sabe o que é essa Saudade que NADA no mundo pode suprir.
Nada poderá trazer de novo o som da voz, o calor do abraço, ou simplesmente aquele contato visual que dizia "eu Te Amo".
Eu sei exatamente como você se sente, passei pelo mesmo à pouquíssimo tempo, e sinto como se estivesse me lendo.
Ele dorme, repousa seguro e trnaquilo, aguardando a hora certa de acordar, e enfim, te ver novamente. Digo isso porque acredito. E porque tenho a mesma esperança.

Mais uma entre as milhares de vezes em que lhe disse e direi: Parabéns, meu Amado.
Com esse texto, trazes lágrimas aos meus olhos, igualdade aos nosso sentimentos, e orgulho. Não só à mim, mas ao seu avô também.

Te Amo!

David disse...

:')

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