quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Jazigo Macio.

Ela sabia que só tinha mais um dia.
Estava diagnosticada.
Então naquela noite estalou ovos, passou ela mesmo o café.
Ele sentou-se a mesa, lhe sorriu Amorosamente
Ela engoliu aquele sorriso devagar, e voltou ao fogão para esconder as lágrimas.
Amavam-se tanto, tanto...
Foi ao quarto, cheirou as roupas dele.
Olhava os sapatos, os uniformes do trabalho, os móveis
Havia ainda o presente bem alí, na medida do possível, sólido.
Mas o passado fora tão perfeito, tão mais perfeito
Tão verdadeiramente o que de melhor acontecera em sua vida
Que ela havia colidido. Estava presa, bem lá.
Ele ligou o chuveiro, e ela ouvia a água cair, enquanto imaginava o seu corpo
Em cada parte. Lembrava-se do gosto, da temperatura
E chorava. Tão insolúvel, pesado, saudoso...
Cerrava os olhos, e seus momentos juntos lhe vinham como vultos.
Céus... Como fora feliz.
Quando ele voltou ao quarto, ela já fingia dormir.
Não houve um diálogo naquela noite
Apenas o costumeiro "Boa noite, meu bem"
E um beijo. Um último beijo.
Aquele silêncio surtia-lhe o efeito de mil demônios gritando em seus ouvidos
Travando uma batalha com a canção que era a respiração lenta dele.
Percebeu que descansava em sono pesado, e o abraçou por trás.
Ele era tudo o que ela mais Amava em sua vida. E a sua existência era o motivo
De seus dias mais quentes, e seus risos mais gostosos.
Vital feito saliva.
Não pregou os olhos aquela noite.
Ela sabia que só tinha mais um dia.
Pois havia se auto-diagnosticado.
A sua chaga era o passado, e era terminal.
Levantou-se e foi tomar o seu café
Que naquela manhã de um quase breu
Descia mais amargo do que o normal.
Pôs-se nua. Vestia apenas seus anéis.
Os que ele lhe dera.
Foi procurar em algum lugar do tempo
O Amor com sabor de manhãs, laranjeiras e reconciliações
Que havia ficado nas frestas.
Ele levantou. Calçou seus chinelos velhos e foi á cozinha.
Havia uma gérbera amarela no canto da janela
E um rouxinol cantava alegremente.
Cantava para sempre.
E lhe destruía pensar que
Ele teria muitos dias.
Muitos, muitos dias.

Boa noite, meu bem.
E,
Eu Te Amo.


Claudio Rizzih.


Como esta noite findará?

4 comentários:

Leonardo Távora disse...

A profundidade dos teus textos não se percebe só na leitura. Esse dom de passar sentimentos para as palavras é algo raro e precioso. Dá pra sentir lá no fundo d'alma.

Mais uma vez, meus parabéns!!

Andresa Alvez disse...

Me diz porque isso me teletransportou para uma noite, um quarto e uma cidade?
Às vezes, tudo que temos são horas, ou apenas um dia, e depois disso, ainda sobram horas, e dias, e anos... E a partir disso, passamos a vegetar. Tudo é borrão, é cinza e passa devagar.
Seria melhor... Não, nada seria melhor, deixa assim.
Uma vez que a doença foi diagnosticada, raramente tem cura.
É, certas feridas não cicatrizam.

E... Parabéns, de novo, de novo e de novo!

Eu sim. ♥

Andresa Alvez disse...

E só pra te deixar em estado de choque: Eu cantarolei hoje durante o dia "Onde esterá o meu Amor"

Aline Brito disse...

MORRI.
MORRI MIL VEZES, sério.

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