quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ovo


Vou chegar assim, mendigo,
e logo te ganho.
Fico assim, contigo,
e te roubo.
Me enxergarás, para ti, o amigo.
me Amas.
E cuspiremos no mundo, donos de todas as razões
Tropeçaremos na baila, mijaremos na orla
Seguiremos as regras –algumas-
Neste entrelaço de artérias.
Vê? Te pertenço.
E então te ouvirei. Te enxugarei, e pronto. Nada falo.
Pois neste nosso silêncio há de haver uma resposta.
Eu serei a tua incubadora
E tu me descobrirás teu umbigo.
Nós dois, num ovo.
Num gole, num bairro.
Num ovo.
Mas aí, caro amigo
Desça logo de mim,
Pra não te machucares muito quando eu partir.
E ainda que eu prometa voltar pra te ver,
Não esperes por mim na varanda,
Nem sondes vez ou outra a sacada
Para ver se viro a esquina.
Deixo contigo memórias
De todo o meu te entender e te Amar.
Deixo saliva, cartas e porra.
Só não espere que eu seja nos teus trilhos permanente companhia.
Não espere de mim ser toda uma ferrovia.
Eu sou uma carona.
Eu, na boléia, sentado ao lado de mim.
Só, e só.

Claudio Rizzih.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tem Saudade na minha Janta.

Como o navio que colidiu com a rocha
E a mãe que espera o filho morto voltar
A vida ancorou. Sempre ancora.
A Saudade sobrenome
É o preço que pago por viver intensamente.
A vida estacionou
Naqueles anos em que tu me Amavas como á ti
Em que dávas-me nós fortes para não fugir
E mal sabias tu que eu jamais partiria.
Fomos felizes.
Boa noite, querido.

Claudio Rizzih.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Inerte.

Eu jurei que encheria de palavras este diário
Feito o do ano passado.
Que colaria fotos e lembranças
E mágoas e demônios.
Mas agora que não há Amor
Quero dizer, de homem
Não há também latim, nem precipícios
Nem frutas nem velórios
Não há porquês
Nem o ano terá trezentos e sessenta e cinco dias.
Restam apenas as brasas de nós dois
As linhas vazias e muros em branco
E tantos, tantos ensaios
De um jovem poeta de merda
Que vive de Saudades e invernos
Nesta inerte pensão dentro de mim.

Claudio Rizzih.

sábado, 1 de outubro de 2011

Dijaox.

Eu sou o encontro do homem que você planejou ser
Com a frustração touro.
Mês que vem eu estive contigo
E amanhã eu senti Saudades.
Me come na maca, eu ejaculo no dreno.
Me Ama na cara que eu to podre por dentro.
Eu idoso.
Surrado da vida
Á velar nossas bodas.


Claudio Rizzih.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Penha

(Num fim de tarde demais pra pensar em fazer diferente).


Os meus pés desenham o fim do trapiche desta praia
Abaixo dos meus olhos um mar sem ondas, silencioso
E profundo.
Deve haver lá em baixo peixes, espécies muitas, areia, objetos.
Sinto uma vontade tamanha de me deixar cair
E ver se no meio desta desordem de Deus
Encontro o que restou daqueles dias. Do passado.
Que uma vez me pôs maravilhado, e abandonou-me
Em Saudades a ancorar.

Claudio Rizzih.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Jazigo Macio.

Ela sabia que só tinha mais um dia.
Estava diagnosticada.
Então naquela noite estalou ovos, passou ela mesmo o café.
Ele sentou-se a mesa, lhe sorriu Amorosamente
Ela engoliu aquele sorriso devagar, e voltou ao fogão para esconder as lágrimas.
Amavam-se tanto, tanto...
Foi ao quarto, cheirou as roupas dele.
Olhava os sapatos, os uniformes do trabalho, os móveis
Havia ainda o presente bem alí, na medida do possível, sólido.
Mas o passado fora tão perfeito, tão mais perfeito
Tão verdadeiramente o que de melhor acontecera em sua vida
Que ela havia colidido. Estava presa, bem lá.
Ele ligou o chuveiro, e ela ouvia a água cair, enquanto imaginava o seu corpo
Em cada parte. Lembrava-se do gosto, da temperatura
E chorava. Tão insolúvel, pesado, saudoso...
Cerrava os olhos, e seus momentos juntos lhe vinham como vultos.
Céus... Como fora feliz.
Quando ele voltou ao quarto, ela já fingia dormir.
Não houve um diálogo naquela noite
Apenas o costumeiro "Boa noite, meu bem"
E um beijo. Um último beijo.
Aquele silêncio surtia-lhe o efeito de mil demônios gritando em seus ouvidos
Travando uma batalha com a canção que era a respiração lenta dele.
Percebeu que descansava em sono pesado, e o abraçou por trás.
Ele era tudo o que ela mais Amava em sua vida. E a sua existência era o motivo
De seus dias mais quentes, e seus risos mais gostosos.
Vital feito saliva.
Não pregou os olhos aquela noite.
Ela sabia que só tinha mais um dia.
Pois havia se auto-diagnosticado.
A sua chaga era o passado, e era terminal.
Levantou-se e foi tomar o seu café
Que naquela manhã de um quase breu
Descia mais amargo do que o normal.
Pôs-se nua. Vestia apenas seus anéis.
Os que ele lhe dera.
Foi procurar em algum lugar do tempo
O Amor com sabor de manhãs, laranjeiras e reconciliações
Que havia ficado nas frestas.
Ele levantou. Calçou seus chinelos velhos e foi á cozinha.
Havia uma gérbera amarela no canto da janela
E um rouxinol cantava alegremente.
Cantava para sempre.
E lhe destruía pensar que
Ele teria muitos dias.
Muitos, muitos dias.

Boa noite, meu bem.
E,
Eu Te Amo.


Claudio Rizzih.


Como esta noite findará?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Feto

E daí que tu tens que acordar amanhã cedo?
Atende esse telefone agora, e me ouve.
Me ouve porque eu preciso dizer que Eu Te Amo.
Que Eu Te Amo mais do que qualquer "mais do que".
Que eu passo os dias procurando involuntariamente nos outros
Um pedaço de vida que me aproxime daquilo que nós éramos juntos.
Sei que você vai dizer que é drama, cabeça fraca
Mas preciso confessar que quando estou feliz
Procuro as nossas lembranças e me ponho triste
Porque não aceitaria jamais "superar" tudo isso.
Isso de "bola pra frente e a vida continua".
A vida continua sim. A minha vida, em suas mãos.
Então eu escolho mais uma vez o náufrago, o aborto.
Porque a vida vem tentando germinar em mim sementes de amanhãs
De outros e cores que eu já conheço.
Eu as aborto todas.
Como pode depois de todo sofrimento, temporal, e
Madrugadas insones de coriza
Eu Te Amar ainda mais do que quando ontem?
Eu tenho comprado todos os teus perfumes e passado em mim
E me entorpeço e me toco, pra enganar-me a pensar que és tu
Mas nem minha mão tem o calor dos teus dedos
Nem eu sou capaz de passar num simples toque
Todo o Amor que tu me davas.
Sabes o que sinto ao te ver com prováveis Amantes?
Vontade de matá-los. Um a um.
Eu o faria gritando, e me insoparia.
Aí faríamos Amor ao lado do corpo.
Mas eu não sou assassino de outros. Só de mim.
Nem tu me Amas mais como antes.
Não me queres como antes.
Não lembras com frequencia do nosso antes.
Não atendes os meus pedidos de reconciliação
Nem mesmo atendes o telefone.
Boa noite.
Vou por nosso Amor pra dormir.


Claudio Piegas Fossa Rizzih.